Casa dos poetas

POEMAS DE TIAGO NENÉ - 05Ago2013 19:40:36

CARTA AO FILHO

 

filho, já não há sangue do meu correndo nas tuas veias,
há uma humidade opaca nesta ferida,
sinto-me um sopro enchendo a fissura da rocha que sou;
filho, havia ainda um último fósforo, uma dúvida
mais transparente que o ar, a única que não pode haver
entre um pai e um filho, uma árvore ardendo
no meu amor;
filho, hoje o teu rosto parecido com o meu
perdeu os pilares que seguravam as nossas parecenças
e toda a respiração se desmoronou;
filho, meu único filho, perdoa-me hoje
o que sinto de ontem, um desamor injusto e selvagem,
cravado na memória, retroactivo;

 

o teu pai

 

*

 

CRIATURÁRIO


limpamos o sujo do nosso vinil
com a ilha nua que as mãos formam;
a música não nos atinge; as metáforas
sabem a mercúrio, os hábitos são ecos
de delfim;
a palavra reflecte o homem,
o homem há muito que deixou
de reflectir a palavra, desde que o vento
pediu às nuvens que inventassem outra vez
o amor, sem respeito pelas situações
adquiridas ao abrigo das leis anteriores;
o nosso amor antigo tem lascas,
o desamor actual tem corrosão verde;
hoje desapertamos todo o esforço do mundo
e pelas mãos entramos no disco de vinil;
e sempre que alguém se aperceber
de um pequeno salto na agulha, somos nós
evitando uma onda;

 

*

 

O JARDIM DE MONET

 

o homem procura a saída como a flor
procura a sombra, e o frio a manhã
como o corpo procura um cardume de memórias
gastando a distância entre elas; o homem procura
a saída, como o paraíso as montanhas, e o cão
o jardim de monet, e o gato vê do
telhado os turistas olhando a história, apreciando
a beleza do rei; o homem procura a saída
na pequena falta de cerâmica do mundo
como as páginas do livro que se tornam
planícies e depois vales; o homem procura a saída
depois dos arbustos da púbis, seguindo
o pássaro com o seu coração no bico, bem para lá
do ventre; saberá o pássaro o lugar exacto
de onde retirou o coração? será este o mesmo
corpo? leva tempo e o homem esquece o coração
e procura a saída, talvez como o gesto enlutado
que procura a sua cor, e a cor que procura
sintonizar a tonalidade apropriada para a circunstância;
o que é certo é que o homem procura a saída
com a respiração editável dentro do corpo
e os olhos parecendo restituir todo o seu peso no arfar;
mais tarde, por fim o homem farto
pergunta à mulher onde é a saída, e ela
encolhe os ombros e abre os braços; foi então
que ele entrou nela e, de certa forma, sem dúvida
a mais bela de todas, nunca mais saiu;

 

 

COMUNICAÇÃO


Para Albano Martins

 

pões uma pausa à volta de cada palavra.
em cada pausa circular colocas uma porta.
convidas outras palavras para irem ao encontro
dessa pausa, dessa porta.
cada palavra tem, então, dentro de si
outras palavras.
ninguém sabe. mais tarde, pões uma distância
à volta de cada palavra.
algures a meio, colocas uma janela. desafias
outras palavras para taparem essa janela
com os seus significados mais primitivos, de modo
a se não permitir a interrupção dessa distância.
ao longe ninguém dará por isso.
erradicas do teu vocabulário a palavra
«nomeadamente».
sabes que os poemas secundam a vida
e por vezes vão para além dela.
mais tarde, comunicas com o teu amor
mais distante.
envias uma carta. telefonas. mandas mail.
és experiente e superior porque te soubeste
condicionar de múltiplas maneiras.
sabes que o amor é a menor distância possível
entre dois seres vivos.

 

Poemas de "Relevo Móbil Num Coração de Tempo"
de Tiago Nené
Lua de Marfim, 2012



Fonte: http://casadospoetas.blogs.sapo.pt/80650.html

Um poema do poeta brasileiro Ronaldo Cagiano - 07Jun2012 23:29:01

REINVENTANDO-ME

A Ricardo Ghelman

 

Como a ave mitológica,

cada dia renasço

das próprias cinzas.

Reinvento o calendário

para rea(s)cender a minha vida.

Velho dilema:

se cruzo os braços, fracasso;

se avanço o semáforo, desapareço.

 

Mas não sei se continuo

como Sísifo sem sua

doida roda-viva:;

ora pedra sobre os escombros

de mim mesmo,

ora aclive ressuscitado

em constante desafio.

Não resisto ao amanhã,

mas estou perdido no ontem

enquanto o presente

me sentencia e descaminha.

 

Enquanto não estendem a ponte

tento fazer a catarse

de um salto dialético impossível. 

 

 

Ronaldo Cagiano

in O Sol nas Feridas



Fonte: http://casadospoetas.blogs.sapo.pt/80563.html

Um poema de Sylvia Beirute - 29Set2011 17:13:31

CONOSCENZA

 

{o teu reconhecimento é a tua dependência},
não o deixes passar da fase da costura.
surge. insurge. inespera.
adquire expressões através do
eco difuso dos vegetais, coloca-te
nas ranhuras da madeira.
há uma vida imprópria algures.
pode não ser como aquela que espera
na plumagem de uma memória
por antecipação, mas protege o silêncio
e não deixa coagular o sangue.
{o teu reconhecimento é a tua dependência},
e quanto mais o memorizares
mais afastado estarás
dos lados obtusos de quem te deseja habitar
e da semântica temporal
das pessoas que te pedirão um
poema bonito,
e nada pior do que escrever
um poema bonito.

 

Sylvia Beirute

in Uma Prática para Desconserto



Fonte: http://casadospoetas.blogs.sapo.pt/80362.html

Um poema do poeta brasileiro Fabrício Carpinejar - 10Jun2010 00:38:31

Não me inquieto

quando não recebo as respostas

das perguntas que não fiz.

Eu me conformei

em reservar alguma coisa

de ti para saber depois.

Um pouco de nosso amor

será póstumo.

É recomendável

não descobrir todos os segredos.

 

Fabrício Carpinejar



Fonte: http://casadospoetas.blogs.sapo.pt/80116.html

Um poema do poeta francês Paul Éluard - 25Ago2009 18:15:25

 

GRITAR

Aqui a acção simplifica-se
Derrubei a paisagem inexplicável da mentira
Derrubei os gestos sem luz e os dias impotentes
Lancei por terra os propósitos lidos e ouvidos
Ponho-me a gritar
Todos falavam demasiado baixo falavam e escreviam

Demasiado baixo

Fiz retroceder os limites do grito

A acção simplifica-se

Porque eu arrebato à morte essa visão da vida
Que lhes destinava um lugar perante mim

Com um grito

Tantas coisas desapareceram
Que nunca mais voltará a desaparecer
Nada do que merece viver

Estou perfeitamente seguro agora que o Verão
Canta debaixo das portas frias
Sob armaduras opostas
Ardem no meu coração as estações
As estações dos homens os seus astros
Trémulos de tão semelhantes serem

E o meu grito nu sobe um degrau
Da escadaria imensa da alegria

E esse fogo nu que pesa
Torna a minha força suave e dura

Eis aqui a amadurecer um fruto
Ardendo de frio orvalhado de suor
Eis aqui o lugar generoso
Onde só dormem os que sonham
O tempo está bom gritemos com mais força
Para que os sonhadores durmam melhor
Envoltos em palavras
Que põem o bom tempo nos meus olhos

Estou seguro de que a todo o momento
Filha e avó dos meus amores
Da minha esperança
A felicidade jorra do meu grito
Para a mais alta busca
Um grito de que o meu seja o eco.


Paul Éluard, in "Algumas das palavras" dom quixote, 1977
trad. António Ramos Rosa e Luisa Neto Jorge

 

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Fonte: http://casadospoetas.blogs.sapo.pt/79829.html

O Terramoto - um poema do poeta do Algarve Tiago Nené - 26Jun2009 17:21:49

 

 

O TERRAMOTO

 

[a uma pessoa intemporal]

 

querida joana, o terramoto apanhou pessoas que faziam amor,

pessoas que morriam de uma causa lenta e dolorosa,

pessoas que celebravam contratos com apertos de mão,

pessoas com instrumentos na terra fértil,

pessoas que faziam de conta, pessoas sem relógio.

os que faziam amor perpetuaram-no, os que morriam

viram a sua morte impedida por uma colectiva e mais bem aceite,

os que celebravam contratos perderam as mãos coladas,

os que trabalhavam na terra fértil foram soterrados,

os que faziam de conta procuraram cumprir uma promessa,

os que não tinham relógio escaparam ao tempo.

meu amor, sermos egoístas é tentar impedir que as coisas mudem,

sermos intensos é não respeitar causas e efeitos,

espero-te no meu futuro, ainda que ele não seja

o efeito directo de um presente que ainda treme muito.

 

Tiago Nené

in Polishop

(em preparação)

 

 

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Fonte: http://casadospoetas.blogs.sapo.pt/79402.html

Entrevista ao poeta Hugo Milhanas Machado (Exclusivo) - 28Mai2009 21:11:50

Hugo Milhanas Machado é um caso de sucesso na poesia portuguesa contemporânea. Já passava das duas da manhã do dia vinte e cinco quando chegou à Casa dos Poetas, vindo directamente de Salamanca, onde reside Respondeu a algumas questões de Tiago Nené e desapareceu num poema. Nunca mais o vimos.

 

 

 

 

Tiago Nené - Como descreves a evolução entre Clave do Mundo e Mas que Hei-de?

 

Hugo Milhanas Machado - Retocam-se, sobretudo, determinados processos formais, muito concretamente no que respeita ao poema homónimo, Mas que hei-de.  Ao livro com este título, assiste, como sabes, o poema inicialmente incluído em Masquerade e depois revisto para Clave do Mundo (já então com o título actual): uma jornada de ensaio jazz, como apontou o Henrique Manuel Bento Fialho na única crítica ao livro de que tenho notícia, e que aproveito para agradecer. Apeteceu entretanto resolver a fonia que por ali andava (de “masquerade” a “mas que hei-de”) e então publicar uma versão definitiva e autónoma do texto – o que aliás corresponde ao plano inicial: as secções “Amurada” e “Os Grandes Guerreiros” juntaram-se a “Masquerade” em instância posterior, e assim ficaram. Dizer apenas que este Mas que hei-de está ainda por editar. Antes dele virá mesmo, já em Julho, Entre o Malandro e o Trágico, pela Sombra do Amor, integrando poemas que, na sua maioria, poderiam ter sido incluídos em Clave.

 

Cito a nota composta há mais de um ano para este Mas que hei-de, portanto inédita, em vista de alimentar algum eventual interesse genealógico:    

 

“Do poema agora publicado foram já impressas uma primeira versão, em Masquerade (2006), sob título homónimo, e uma segunda, no ano seguinte, incluída no poemário Clave do Mundo”.

 

“Este é o poema definitivo, desmanchada a palavra de que apenas tinha a melodia. Ainda que resista em pensá-lo como um quarto livro: se começou onde começou, se fecha aqui e assim. Canto de qualquer maneira, e acabo com um sentido, e isto é de Pessoa.”



 

TN - Costumam perguntar-me como concilio a advocacia com a poesia. No teu caso tens a docência de Literatura Portuguesa em Salamanca, o baixo eléctrico e a poesia. Como se administra tudo isso?

 

HMM - A obrigação docente impera, como está bem de ver, e devo dizer que com grande gosto. A obrigação de conviver criticamente com textos, se tensa, é também muito gratificante. E, sobretudo, o trabalho com os alunos. Mas a semana ainda é grande, e tende a sobejar um par de horas entre o jantar e a dormida, que normalmente dedico a leituras não-académicas e a escritura que toque. Por ora ando em Nuno Bragança e corrijo poemas de um conjunto intitulado Roupas Beras, que farei por publicar ainda este ano. Quando possível, então, um ou outro ensaio com o meu amigo Philip Jenkins – temos devagarinho uma banda, The Lisbons – e os treinos com a rapaziada do andebol. (Aproveito para confessar que muitos versos devo-os a uma ou outra impressão destes exercícios de movimento defensivo basculante, cruzamentos lateral/ponta, etc.)

 



TN - Qual a importância de teres ganho o Prémio José Luís Peixoto? Que te motiva nos prémios literários?

 

HMM - Terão a sua importância, mais ou menos significativa, mas a participação nestes prémios tenho-a, digamo-lo, como forma de partir pedra, como estímulo. Jogar textos, esperar reações e atritos, e, naturalmente, alguma eventual publicação. Mas o que realmente me interessa são os livros.  

 



TN - Como vês o panorama geral da poesia portuguesa, principalmente no que concerne aos novos autores?

 

HMM - Creio que ainda vamos gerindo a dificuldade de escrever à sombra de um século tão poderoso como o cessante – e basta atentar em discursos de alguma dessa nova poesia tão devedores de lições sobretudo sessentistas e setentistas para ver do vigor ainda em marcha. Julgo, no entanto, que no que respeita a novos autores  - a propostas inclinadas ao novo - se poderão identificar constelações muito interessantes, de certa forma consolidadas em si mesmas, em círculos como os de Faro, Lisboa-Santarém, e Porto, por exemplo. Faz falta uma geração de crítica que se volte para estas novas propostas – a bem dizer, que esta poesia se atice no discurso crítico e se escapem a certos modismos ou hypes mais ou menos consentidos. Há muito boa poesia por aí, e também uma crítica valente, ainda em formação. Menciono a título de exemplo a minha amiga Emília Pinto de Almeida, que sabe muitíssimo de poesia. 



TN - Haverá na realidade uma "novíssima poesia portuguesa". Como a descreves? Sentes-te parte dela?

 

HMM - Existem muitos novos poetas, grande parte deles publicados, muitos agregados também em torno de revistas e, claro, a imensidão de aventuras cibernéticas. Está bem de ver que a bitola de potência é ampla, mas creio que não me compete ajuizar sobre malta, muita dela, da minha idade. Tenho gostos, e, molhando o pé, devo dizer que tenho lido com especial interesse alguns poemas, por exemplo, da Ana Salomé, do Luís Filipe Cristóvão, do Rui Almeida...

 

Não creio, contudo, que seja apropriado sondar esta paisagem de autores em clave generacional, a não ser no que respeita a certas constelações a que atrás aludi, de certa forma identificadas com colectivos, editoras, revistas ou circuitos, e nesse sentido somos todos novos: a rapaziada da Criatura, do Texto-al - Grupo Literário do Algarve, do Sulscrito (muito bem inclinado à raia espanhola), ou, jogando para casa, na Cooperativa Literária.

 

O Henrique Manuel Bento Fialho dizia no texto que atrás mencionei que não me cabe “o estatuto de novíssimo”, e eu alinho. Estando igualmente algo distante do coração dos discursos legitimadores do “novíssimo”, não me cumpre mais que o compromisso íntimo depositado na palavra, como malha donde ver o mundo. 

 

A Casa dos Poetas 

 

 

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Sara Gutiérrez Caballero - um poema da poetisa espanhola Sara Gutiérrez Caballero - 25Mai2009 00:09:05

 

 

LISBOA

 

De Lisboa recordo os jardins

sonolentos, as ruas tortuosas

do bairro de Alfama e a luz

secreta das tardes junto ao cais

onde juntos bebemos os movimentos da água.

E recordo as noites sem penumbra,

o mar azul, a rota dos comboios

que perdemos naquele junho radiante

e luminoso.

Hoje escuto o seu eco

enquanto a névoa flutua nas colinas

e rangem de saudade os carris,

a hera, os postigos e os fundos

de água entre sereias desaparecidas.

Não sei se o recordo ou somento esqueço

o peso intransitável das sombras.

Pois ainda que o tempo arraste para o nada

a juventude, a felicidade, os tesouros,

ainda que não volte jamais o paraíso,

será sempre primavera em Lisboa:

é que não vejo na memória nem nos seus mapas

esse ónus obscuro do regresso.

 

Sara Gutiérrez Caballero

Tradução de Tiago Nené

 

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Adelino Ínsua - um poema do poeta portuense Adelino Ínsua - 13Abr2009 23:42:08

Se o teu olho é simples, todo o teu corpo será luminoso

 

Começa por atentar ao que se passa entre a urze e as abelhas

à doce árvore entre a terra e o céu.

Sobe às alturas das pedras nuas,

estão difíceis estes modernos tempos para a contemplação,

na rarefacção dos lugares teofânicos.

Toma nos lugares mais baixos a beleza

de uma azeitona no silêncio do meio-dia estival.

Contemplações insignificantes

contemplações mais magnificentes.

Depois deves numerá-las: a cerimónia.

Para que germinem no teu vaso de ouro

e sobre elas desça o orvalho e o perfume dos cedros.

 

Adelino Ínsua

 

 

 

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Manuel Arana - um poema do poeta espanhol Manuel Arana - 18Mai2009 00:44:06

 

 

INVESTIGAÇÃO FILOLÓGICA

 

Um dia destes chamo-te

E gastamos um momento para fazer amor.

A ver se é verdade isso que dizia Cernuda

De que os corpos fazem um ruído muito triste

Quando se amam.

 

Manuel Arana

in Adolescencia dos: poemas hormonados

Tradução de Tiago Nené

 

 

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A. Dasilva O - um poema do poeta A. Dasilva O - 13Abr2009 23:30:18

ODE AO VINIL

 

Uma agulha suja

por muitos acordes

suicidas enche-me

de catástrofes

entre o sentido

e a dissimulação

do seu destino

 

Lá fora dançam impessoais

as personagens-fantasma

da poética mutilação

do eterno retorno

que lá dentro dança

fora de si

 

Espero-me em silêncio

tal anjo perdido

poeticamente distorcido

pela palavra

 

Espero-te ao espelho quebrado

sem nada para te dar

entre gemidos agudos e graves

na camisa de sete forças

da palavra

 

A. Dasilva O

 

 

 

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João Luís Barreto Guimarães - um poema do poeta João Luís Barreto Guimarães - Páscoa Baixa - 08Mai2009 21:11:41

PÁSCOA BAIXA

 

Durante a manhã inteira a barba

ainda cresceu. O vórtice que me picava

ao fim de um dia de trabalho

já o posso adivinhar

neste círculo de flores.

O seu torso é imóvel. Nada

diviso a mover-se (um relâmpago das pálpebras?

o pensamento de um dedo?)

velo a hesitação da barba qual

néscio agarrando tempo.

Durante a manhã de março a

barba ainda cresceu

qualquer coisa dentro dele ainda

não queria morrer.

 

João Luís Barreto Guimarães

in A Parte pelo Todo

2009 – Quasi Edições

 

 

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Fonte: http://casadospoetas.blogs.sapo.pt/78475.html

José Carlos Barros - três poemas do poeta de Boticas José Carlos Barros - 07Mai2009 22:49:26

Os noticiários da manhã

 

Os noticiários da manhã abriram com essa imagem

fabulosa: dois poetas construíam um edifício.

Não era um edifício abstracto. Não

era o utópico edifício do coração das obras.

Era um edifício verdadeiro: alicerces,

paredes, telhado; pedra, tijolos,

cimento. Em vez do exercício habitual

de poetas procurando destruir os edifícios

todos da cidade, um a um, disparando canhões

de pólen, estes dois poetas erguiam

um edifício verdadeiro, concreto,

tangível. E isto é de uma humanidade

comovente. E isto chego a pensar

que quase merecia um poema.

 

É verdade que sinto

 

É verdade que sinto um imenso desprezo

pelos poetas. Por todos os poetas.

Esses seres ignóbeis que escrevem

a palavra «estrela» e uma estrela, de súbito,

nos queima os dedos distraídos. Uma

vez esteve aqui um poeta. Escreveu

a palavra «labareda». E ainda hoje as manchas

do fogo sujam as paredes e os

mosaicos vidrados da sala de reuniões

do Conselho de Administração.

 

Uma leitura pública num café de Punta Umbría

 

Quando leio um poema em voz alta

sinto que as pessoas me olham

como se esperassem uma revelação.

Como se estivessem à espera dos milagres.

E hoje, finalmente, quase cedo à

tentação de explicar os mecanismos

dos milagres. Por exemplo:

eu posso fazer gelo escrevendo apenas

a palavra «gelo». E isso mesmo

faria neste momento

se não temesse que os mais distraídos

usassem o gelos nos copos

altos do gin tónico.

 

José Carlos Barros

Inéditos

Lidoaqui

 

  

 

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Fonte: http://casadospoetas.blogs.sapo.pt/78197.html

César Actis Bru - um poema do poeta argentino César Actis Bru - Dentro do Autocarro - 03Mai2009 20:10:15

 

 

 

DENTRO DO AUTOCARRO

 

Dentro do autocarro

uma mosca

viajou connosco

desde a capital

da república

até à simples

capital de uma província.

 

Que será da sua vida

quando desça

e se encontre

tão sozinha e inválida

como os seres humanos

depois da queda?

 

César Actis Bru

(Santa Fe/Argentina)

Tradução de Tiago Nené

 

 

 

 

 

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Fonte: http://casadospoetas.blogs.sapo.pt/78059.html

Adélia Prado - um poema da poetisa brasileira Adélia Prado - Casamento - 13Abr2009 23:35:01

CASAMENTO

 

Há mulheres que dizem:

Meu marido, se quiser pescar, peque,

mas que limpe os peixes.

Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,

ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.

É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,

de vez em quando os cotovelos se esbarram,

ele fala coisas como «este foi difícil»

«prateou no ar dando rabanadas»

e faz o gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos pela primeira vez

atravessa a cozinha como um rio profundo.

Por fim, os peixes na travessa,

vamos dormir.

Coisas prateadas espocam:

somos noivo e noiva.

 

Adélia Prado, poetisa brasileira

 

 

 

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Fonte: http://casadospoetas.blogs.sapo.pt/75654.html

A. Alvarez - um poema do poeta inglês A. Alvarez - 13Abr2009 23:18:39

ELE DISSE, ELA DISSE

 

Abruptamente, o odor de flores, agudo, vago, delicado,

O velho coração batendo suavemente, olhos

Frescos como uma maçã, todas as rugas idas.

Quem teria imaginado? Não ela, não ele.

 

Algo passou pelo quarto e não ficou.

‘Viste-lhe o rosto?’ disse ela. Ele disse,

‘Que dizia?’ ‘«Ido»’,

Respondeu ela, ‘Ou foi isso o que pensei que disse’.

Ele respondeu, ‘Não. «Vem,» estou certo de que foi «vem».

Chamou,’ disse ele, ‘Devíamos segui-lo. Não voltará.’

‘Espinheiro no Outono,’ disse ela, ‘Não me faças rir.

«Ido» foi a palavra, e partiu. Não sejas louco.’

 

‘Espinheiro,’ disse ele, ‘Primavera, o odor tardio de Primavera.

Tudo abre, tal como era.

Não vens comigo?’ disse ele. ‘Ainda temos

Uma oportunidade. Escuta. Cheira,’ disse ele,

‘Fomos adiados.’ Lentamente, preguiçosamente,

Ela abanou a cabeça pesada e virou-se.

‘Não espero,’ disse, ‘Não penses que o farei.’

 

O cabelo escuro à volta do rosto, os olhos ocultos.

‘Nunca,’ disse ela, ‘Já esperei demais.’

Ele respondeu, ‘Escuta. Está a chamar. É a nossa última oportunidade.’

Como comida, como chuva, como névoa. Boca aberta, coração aberto.

‘Tudo floresce,’ disse ele, ‘Como quando éramos novos.’

‘Quando éramos novos?’ perguntou ela, ‘Não me lembro.’

 

Uma centelha de oiro, um sorriso, uma voz vaga chamando

Confusamente ‘Vem,’ ‘Ido,’ ‘Vem’. Os odores mesclados

De Primavera na noite de Outono. ‘A nossa última oportunidade,’ disse ele.

E ela respondeu, ‘Aproveita-a sem mim.’

 

A. Alvarez

Poema com tradução de Manuel de Seabra.

 

 

 

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Fonte: http://casadospoetas.blogs.sapo.pt/74863.html

Jack Kerouac - um poema do poeta americano Jack Kerouac - 23Abr2009 02:12:49

 

 

O universo é uma senhora.

Conserva no seu interior a luz ainda por nascer —

A Nossa Senhora. Notre Dame

Apropriado é que Nostradamus pudesse prever o futuro —

Essa é uma função de nossa senhora.

Nós que somos as folhas do chá.

 

Jack Kerouac

in Pomes All Sizes

Tradução inédita de Tiago Nené

 

 

 

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Fonte: http://casadospoetas.blogs.sapo.pt/77591.html

Isabel Meyrelles - um poema da poeta surrealista portuguesa Isabel Meyrelles - 14Abr2009 00:05:26

Entre o unicórnio e tu

O espaço de um grito

Cega procura

Do teu corpo

No interior de ti

No meu amor

Espaço entre unicórnio

E eu

 

Isabel Meyrelles

in Poesia

Edições Quasi

 

 

 

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Tiago Nené - um poema do poeta Tiago Nené - Cidade Subjectiva - 20Abr2009 23:40:55

 

CIDADE SUBJECTIVA

 

E depois existe uma cidade subjectiva

(sem casas)

e observa-se no ar

um copo de whiskey gigante, ouvem-se vizinhos furtivos

sobre a sede rígida,

e emagrecem as palavras que riscam a parede, descreve-se

a memória cautelosamente

e sazonam-se as vozes que vão escurecendo

num buraco de energia.

E faz-se silêncio e não há luz na mão.

[E o futebol não pára

(um jogador vê o segundo amarelo e volta

para o geral subjectivo)]

E por fim,

uma última corrida à tona de um semi-sono vivo,

a solidão de um golo.

Nasce então o esquecimento de uma alegria

(violoncesca)

de noite, luzes e transpiração.

 

Tiago Nené

in Polishop

(pré-publicação)

 

 

 

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Fonte: http://casadospoetas.blogs.sapo.pt/77412.html

Adalberto Alves - um poema do poeta Adalberto Alves - 13Abr2009 23:25:28

No Ano Internacional da criança

Dizia aqui há dias, não sei quem,

Com sorrisos de abastança e falas de desdém

- Que fome impertinente, que gula subversiva!

E fogueiras ardem e desmascaram-se folias.

Sobre um mar negro onde a loucura é diva

Desfraldam-se guerreiras melodias.

Boiardos sublevados cospem no cadáver de Lenine

Enquanto uns comem passas de Corinto

No Palácio de Inverno há biombos de absinto

Para que a matula, por detrás, urine.

Reuni a Geral Assembleia da generalizada carência

Vós sois orgulho e gáudio de toda a nossa ciência!

Párias do Bangla Desh

Paus de Arara do Nordeste

Kampucheias peregrinos

Bantustões das podres roças

Sentam-se com um sorriso agreste

E mães mostram meninos com um ar exangue.

Depois entra o Biafra a cantar hinos

E ostentando as mãos cheias

De pistolas disparam – bang, bang –

Vestidos de cowboy, sem sapatos nem meias.

«Alto lá, esta lata está estragada!»

Grita descomposto Hamlet na televisão

Olhando a caveira do pai mal embrulhada.

Bob Dylan suspira que nos States se desterra

E pelo sim, pelo não,

Investe em acções numa fábrica de guerra.

Porco, sujo, quero-me porco!

Poderia Maiakovski ter gritado

No auge do desespero e da desdita

Porque até o modernismo se consome,

Tem a modernidade que tem a própria fome dita.

Ai Marinetti! Suspira o Duce p’ra Dannunzio,

E o Che faz tiro ao alvo nas palavras, presas numa guita,

Dos poetas de raras sensações.

E «um grande lagarto verde com olhos de pedra e água»

Vende castanhas a dez tostões

E puxa fogo aos rútilos pinhais da mágoa.

Entretanto, ò suprema das venturas,

É Natal e isso se alcança da televisão a cores

Mas um hereje desdenha das alturas

Porque adormece mal,

Porque não tem boa-vontade

De se deitar com fome

De amanhecer com dores.

E enquanto se entende a doce melodia

O Papa no fervor da pregação

Escorrega e cai com palavras ímpias

Sobre a pia.

Ai João Paulo cinquenta vezes o negaste!

Estar vivo é ferver em água benta

E tudo é um paiol ou uma veia

Que ao pulsar fatalmente rebenta.

Por isso sou um louco à margem da vida

Com os cabelos da alma desgrenhados.

Estou convosco ò miseráveis

Na vala comum dos deserdados!

E, ai de mim, que vaga fronteira!

Um instante de vida é tempo ganho à morte

Pois morrer aos quinze anos ainda é ter sorte.

Por isso Índia, efémera e vedântica

És santa e luminosa

Na cópula frenética

Mas, perdoem-me Aurobindo ou Ramdas,

- Tudo será Maya – que visão esquelética!

À folia, à tripa forra!

Viva o coito de barraca

Com os incautos a olhar

E a chafurdarem, alegremente, em caca.

Vejo tudo isto – constatação bem velha

E Van Gogh doido de amarelos

Corta uma orelha.

Olho distraído o meu umbigo

Tenho nojo da minha saciedade.

A rainha de Inglaterra perde a compostura

E masturba-se com banana madura

Inaugurando um lar para a terceira idade.

Wenn ich eine Schwalbe wäre

E um miúdo maltrapilho risca-me o carro

E eu fico de olhar turvo e com um instinto bera.

Ò portas cintilantes sobre a madrugada

Ténues vestígios sobre a fronteira da vida

Aparas da morte debruçadas sobre o nada,

Tão perto, tão perto…

Coexistem alegres comemorações sobre o corpo de um burro

E de M=mc2 um vago cheiro a esturro.

Um hipopótamo vestido de Tio Sam

Vai direito à lua todo cio.

Bandeirinhas se agitam em todas as nações

Ritmos de can-can

Alegres canções

E eu penso: A puta que os pariu!

E ardo como um incêndio

No manicómio da história

E é noite de Natal,

Alles Schlaft,

E – Tudo brilha em glória.

Num lance de teatro

Cristo foge arrependido pela porta do cavalo.

Torquemada murmura: meus irmãos!

A oposição berra: não me calo!

E um Pilatos qualquer defeca aliviado

Na bacia em que lavou as suas mãos.

- Canso-me enfim. Quero dormir sobre este pesadelo.

Um instante de repouso

E que haja aqui e agora um velho do Restelo,

Que nos incendeie ou nos roube as esperanças

E sendo das Fúrias o seguro dono,

Nos lance a sua maldição:

 

Gente sem sentido,

Ou voltais de novo a ser crianças

Ou tendes de perder, para todo o sempre, o sono!

 

Adalberto Alves

 

 

 

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Fonte: http://casadospoetas.blogs.sapo.pt/75074.html

Manuel de Freitas - dois poemas do poeta Manuel de Freitas - 13Abr2009 23:58:05

Grand Hotel København, 326

 

Onze horas: a tua mão adormecida marca

agora um conto de Karen Blixen

- veremos em breve essa casa cinzenta,

em Helsingør - enquanto eu ouço uma sonata

de Scarlatti tocada por Scott Ross

e sei que também isso ficarei a dever à Dinamarca.

 

Apontamentos culturais? Podem até chamar-lhes

assim, ignorando a áspera nudez da voz,

o grito comum que viemos suspender aqui.

Lá em baixo, por exemplo, os funcionários do

restaurante, terminado o serviço, abrem

a terceira garrafa de champanhe e fumam

ruidosamente, como se amanhã não existisse.

 

A questão, no fundo, é apenas esta: há momentos

em que a vida nos parece quase bela,

escolhos onde embatem as mais íntimas certezas.

 

Talvez adormeçamos lado a lado,

de costas para a morte, e haja corsários ao fundo,

um mar de gelo protegendo-nos da noite.

 

 

All you need is love 2

 

Mas não é bem assim, dir-se-á.

Vinte e seis séculos de lírica

deviam, pelo menos, provar o contrário

- na hipótese argilosa de esses

cadáveres afamados terem alguma coisa

a dizer-nos quanto ao melhor método

de atravessar ruas superpovoadas.

 

Onde eu te vi passar, meu amor,

com o lenço vermelho, os cabelos

mais curtos e as pernas que embora

tenazes herméticas te davam - por

assim dizer - um ar sofrível de corpo.

 

Não sei porque é que reparei nisso,

logo eu, logo hoje. Simples distracção da morte

- a reinvindicar uma anatomia, e paz.

 

 

Poemas de Manuel de Freitas

 

 

 

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Patricio Manns - um poema do poeta chileno Patricio Manns - 17Abr2009 05:29:26

A VIDA EM ESPIRAL

 

O amor é um orgasmo entre duas lágrimas

A lágrima é um lago rodeado de estertores

O estertor é um vulcão de vento

O vento é o caminho dos cantos

O canto é um mistério da boca

A boca é um abismo antes do peito

O peito é outro abismo entre dois sangues

O sangue é o motor que nutre o acto

O acto é uma dança contra o tempo

O tempo é o que mede espaços até então não numerados

A cabeça é um nó sobre o pescoço

O pescoço é como um istmo entre duas selvas

A selva é o ancestral do deserto

O deserto é um corpo já bebido

Beber não apaga o fogo na consciência

A consciência é outro relógio de areia

A areia faz do cacto um rei antigo

O antigo nos modela como a uma criança

Uma criança é o passado dos corpos

E o corpo é um combate que se perde

A vida é um espaço exacto entre duas mortes

A morte é um espaço exacto entre dois fogos

O fogo é um espaço exacto entre dois frios

O frio é uma chama abaixo de zero

O zero é o silêncio antes do número

O número é o verbo matemático

A matemática é o cálculo da realidade

A realidade é o único incrível

O incrível é o que não podemos

E o que não podemos é o que queremos.

 

Patricio Manns

Tradução em português brasileiro: Thiago de Mello.

Adaptação ao português europeu: Tiago Nené

 

 

 

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Jorge Melícias - um poema do poeta Jorge Melícias - 17Abr2009 16:22:08

O poema são fogueiras levantadas na garganta

ou um sono inclinado sobre as facas.

 

Alguém diz, a prumo

todos os nomes queimam,

e há uma deflagração assombrosa,

 

a palavra acende-se

com uma árvore de sangue ao centro.

 

Jorge Melícias

in A Luz nos Pulmões

 

 

 

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Pedro Gil-Pedro - um poema do poeta Pedro Gil-Pedro - 17Abr2009 00:36:09

Chegaram ao alto das estações XX

 

Chegaram ao alto das estações
com o rumor da monda a velar nos taludes.

juntas
trabalharam a caligrafia caindo
de bruços em novembro. outro
novembro.

depois a cútis susteve
os gestos o cânhamo a escarça
irrompeu nas cordas de um pulmão.

e nas fêmeas adormecidas
com todo o pensamento nos dedos.

do alto
das estações sopraram
novembro nas pálpebras reconhecendo
nos torsos
nus o esperma dos animais.

por fim
embalsamaram novembro no coração.

ou janeiro. tanto faz.

Pedro Gil-Pedro
in Animais Cheios de Movimento no Inverno
Quasi

 

 

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W.H.Auden - um poema do poeta inglês W.H.Auden - 13Abr2009 23:11:23

FUNERAL BLUES

 

Parem todos os relógios, desliguem o telefone,

Não deixem o cão ladrar aos ossos suculentos,

Silenciem os pianos e com os tambores em surdina

Tragam o féretro, deixem vir o cortejo fúnebre.

 

Que os aviões voem sobre nós lamentando,

Escrevinhando no céu a mensagem: Ele Está Morto,

Ponham laços de crepe em volta dos pescoços das pombas da cidade,

Que os polícias de trânsito usem luvas pretas de algodão.

 

Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Este e Oeste,

A minha semana de trabalho, o meu descanso de domingo,

O meio-dia, a minha meia-noite, a minha conversa, a minha canção;

Pensei que o amor ia durar para sempre: enganei-me.

 

Agora as estrelas não são necessárias: apaguem-nas todas;

Emalem a lua e desmantelem o sol;

Despejem o oceano e varram o bosque;

Pois agora tudo é inútil.

 

W.H. Auden

poema com tradução de Maria de Lourdes Guimarães

 

 

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Fonte: http://casadospoetas.blogs.sapo.pt/74644.html

Eduardo Roseira
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