Um poema do poeta francês Paul Éluard - 25Ago2009 18:15:25
GRITAR
Aqui a acção simplifica-se
Derrubei a paisagem inexplicável da mentira
Derrubei os gestos sem luz e os dias impotentes
Lancei por terra os propósitos lidos e ouvidos
Ponho-me a gritar
Todos falavam demasiado baixo falavam e escreviam
Demasiado baixo
Fiz retroceder os limites do grito
A acção simplifica-se
Porque eu arrebato à morte essa visão da vida
Que lhes destinava um lugar perante mim
Com um grito
Tantas coisas desapareceram
Que nunca mais voltará a desaparecer
Nada do que merece viver
Estou perfeitamente seguro agora que o Verão
Canta debaixo das portas frias
Sob armaduras opostas
Ardem no meu coração as estações
As estações dos homens os seus astros
Trémulos de tão semelhantes serem
E o meu grito nu sobe um degrau
Da escadaria imensa da alegria
E esse fogo nu que pesa
Torna a minha força suave e dura
Eis aqui a amadurecer um fruto
Ardendo de frio orvalhado de suor
Eis aqui o lugar generoso
Onde só dormem os que sonham
O tempo está bom gritemos com mais força
Para que os sonhadores durmam melhor
Envoltos em palavras
Que põem o bom tempo nos meus olhos
Estou seguro de que a todo o momento
Filha e avó dos meus amores
Da minha esperança
A felicidade jorra do meu grito
Para a mais alta busca
Um grito de que o meu seja o eco.
Paul Éluard, in "Algumas das palavras" dom quixote, 1977
trad. António Ramos Rosa e Luisa Neto Jorge

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O Terramoto - um poema do poeta do Algarve Tiago Nené - 26Jun2009 17:21:49
O TERRAMOTO
[a uma pessoa intemporal]
querida joana, o terramoto apanhou pessoas que faziam amor,
pessoas que morriam de uma causa lenta e dolorosa,
pessoas que celebravam contratos com apertos de mão,
pessoas com instrumentos na terra fértil,
pessoas que faziam de conta, pessoas sem relógio.
os que faziam amor perpetuaram-no, os que morriam
viram a sua morte impedida por uma colectiva e mais bem aceite,
os que celebravam contratos perderam as mãos coladas,
os que trabalhavam na terra fértil foram soterrados,
os que faziam de conta procuraram cumprir uma promessa,
os que não tinham relógio escaparam ao tempo.
meu amor, sermos egoístas é tentar impedir que as coisas mudem,
sermos intensos é não respeitar causas e efeitos,
espero-te no meu futuro, ainda que ele não seja
o efeito directo de um presente que ainda treme muito.
in Polishop
(em preparação)

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Entrevista ao poeta Hugo Milhanas Machado (Exclusivo) - 28Mai2009 21:11:50
Hugo Milhanas Machado é um caso de sucesso na poesia portuguesa contemporânea. Já passava das duas da manhã do dia vinte e cinco quando chegou à Casa dos Poetas, vindo directamente de Salamanca, onde reside Respondeu a algumas questões de Tiago Nené e desapareceu num poema. Nunca mais o vimos.
Tiago Nené - Como descreves a evolução entre Clave do Mundo e Mas que Hei-de?
Hugo Milhanas Machado - Retocam-se, sobretudo, determinados processos formais, muito concretamente no que respeita ao poema homónimo, Mas que hei-de. Ao livro com este título, assiste, como sabes, o poema inicialmente incluído em Masquerade e depois revisto para Clave do Mundo (já então com o título actual): uma jornada de ensaio jazz, como apontou o Henrique Manuel Bento Fialho na única crítica ao livro de que tenho notícia, e que aproveito para agradecer. Apeteceu entretanto resolver a fonia que por ali andava (de “masquerade” a “mas que hei-de”) e então publicar uma versão definitiva e autónoma do texto – o que aliás corresponde ao plano inicial: as secções “Amurada” e “Os Grandes Guerreiros” juntaram-se a “Masquerade” em instância posterior, e assim ficaram. Dizer apenas que este Mas que hei-de está ainda por editar. Antes dele virá mesmo, já em Julho, Entre o Malandro e o Trágico, pela Sombra do Amor, integrando poemas que, na sua maioria, poderiam ter sido incluídos em Clave.
Cito a nota composta há mais de um ano para este Mas que hei-de, portanto inédita, em vista de alimentar algum eventual interesse genealógico:
“Do poema agora publicado foram já impressas uma primeira versão, em Masquerade (2006), sob título homónimo, e uma segunda, no ano seguinte, incluída no poemário Clave do Mundo”.
“Este é o poema definitivo, desmanchada a palavra de que apenas tinha a melodia. Ainda que resista em pensá-lo como um quarto livro: se começou onde começou, se fecha aqui e assim. Canto de qualquer maneira, e acabo com um sentido, e isto é de Pessoa.”
TN - Costumam perguntar-me como concilio a advocacia com a poesia. No teu caso tens a docência de Literatura Portuguesa em Salamanca, o baixo eléctrico e a poesia. Como se administra tudo isso?
HMM - A obrigação docente impera, como está bem de ver, e devo dizer que com grande gosto. A obrigação de conviver criticamente com textos, se tensa, é também muito gratificante. E, sobretudo, o trabalho com os alunos. Mas a semana ainda é grande, e tende a sobejar um par de horas entre o jantar e a dormida, que normalmente dedico a leituras não-académicas e a escritura que toque. Por ora ando em Nuno Bragança e corrijo poemas de um conjunto intitulado Roupas Beras, que farei por publicar ainda este ano. Quando possível, então, um ou outro ensaio com o meu amigo Philip Jenkins – temos devagarinho uma banda, The Lisbons – e os treinos com a rapaziada do andebol. (Aproveito para confessar que muitos versos devo-os a uma ou outra impressão destes exercícios de movimento defensivo basculante, cruzamentos lateral/ponta, etc.)
TN - Qual a importância de teres ganho o Prémio José Luís Peixoto? Que te motiva nos prémios literários?
HMM - Terão a sua importância, mais ou menos significativa, mas a participação nestes prémios tenho-a, digamo-lo, como forma de partir pedra, como estímulo. Jogar textos, esperar reações e atritos, e, naturalmente, alguma eventual publicação. Mas o que realmente me interessa são os livros.
TN - Como vês o panorama geral da poesia portuguesa, principalmente no que concerne aos novos autores?
HMM - Creio que ainda vamos gerindo a dificuldade de escrever à sombra de um século tão poderoso como o cessante – e basta atentar em discursos de alguma dessa nova poesia tão devedores de lições sobretudo sessentistas e setentistas para ver do vigor ainda em marcha. Julgo, no entanto, que no que respeita a novos autores - a propostas inclinadas ao novo - se poderão identificar constelações muito interessantes, de certa forma consolidadas em si mesmas, em círculos como os de Faro, Lisboa-Santarém, e Porto, por exemplo. Faz falta uma geração de crítica que se volte para estas novas propostas – a bem dizer, que esta poesia se atice no discurso crítico e se escapem a certos modismos ou hypes mais ou menos consentidos. Há muito boa poesia por aí, e também uma crítica valente, ainda em formação. Menciono a título de exemplo a minha amiga Emília Pinto de Almeida, que sabe muitíssimo de poesia.
TN - Haverá na realidade uma "novíssima poesia portuguesa". Como a descreves? Sentes-te parte dela?
HMM - Existem muitos novos poetas, grande parte deles publicados, muitos agregados também em torno de revistas e, claro, a imensidão de aventuras cibernéticas. Está bem de ver que a bitola de potência é ampla, mas creio que não me compete ajuizar sobre malta, muita dela, da minha idade. Tenho gostos, e, molhando o pé, devo dizer que tenho lido com especial interesse alguns poemas, por exemplo, da Ana Salomé, do Luís Filipe Cristóvão, do Rui Almeida...
Não creio, contudo, que seja apropriado sondar esta paisagem de autores em clave generacional, a não ser no que respeita a certas constelações a que atrás aludi, de certa forma identificadas com colectivos, editoras, revistas ou circuitos, e nesse sentido somos todos novos: a rapaziada da Criatura, do Texto-al - Grupo Literário do Algarve, do Sulscrito (muito bem inclinado à raia espanhola), ou, jogando para casa, na Cooperativa Literária.
O Henrique Manuel Bento Fialho dizia no texto que atrás mencionei que não me cabe “o estatuto de novíssimo”, e eu alinho. Estando igualmente algo distante do coração dos discursos legitimadores do “novíssimo”, não me cumpre mais que o compromisso íntimo depositado na palavra, como malha donde ver o mundo.
A Casa dos Poetas

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Sara Gutiérrez Caballero - um poema da poetisa espanhola Sara Gutiérrez Caballero - 25Mai2009 00:09:05
LISBOA
De Lisboa recordo os jardins
sonolentos, as ruas tortuosas
do bairro de Alfama e a luz
secreta das tardes junto ao cais
onde juntos bebemos os movimentos da água.
E recordo as noites sem penumbra,
o mar azul, a rota dos comboios
que perdemos naquele junho radiante
e luminoso.
Hoje escuto o seu eco
enquanto a névoa flutua nas colinas
e rangem de saudade os carris,
a hera, os postigos e os fundos
de água entre sereias desaparecidas.
Não sei se o recordo ou somento esqueço
o peso intransitável das sombras.
Pois ainda que o tempo arraste para o nada
a juventude, a felicidade, os tesouros,
ainda que não volte jamais o paraíso,
será sempre primavera em Lisboa:
é que não vejo na memória nem nos seus mapas
esse ónus obscuro do regresso.
Tradução de Tiago Nené

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Adelino Ínsua - um poema do poeta portuense Adelino Ínsua - 13Abr2009 23:42:08
Se o teu olho é simples, todo o teu corpo será luminoso
Começa por atentar ao que se passa entre a urze e as abelhas
à doce árvore entre a terra e o céu.
Sobe às alturas das pedras nuas,
estão difíceis estes modernos tempos para a contemplação,
na rarefacção dos lugares teofânicos.
Toma nos lugares mais baixos a beleza
de uma azeitona no silêncio do meio-dia estival.
Contemplações insignificantes
contemplações mais magnificentes.
Depois deves numerá-las: a cerimónia.
Para que germinem no teu vaso de ouro
e sobre elas desça o orvalho e o perfume dos cedros.
Adelino Ínsua

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Manuel Arana - um poema do poeta espanhol Manuel Arana - 18Mai2009 00:44:06
INVESTIGAÇÃO FILOLÓGICA
Um dia destes chamo-te
E gastamos um momento para fazer amor.
A ver se é verdade isso que dizia Cernuda
De que os corpos fazem um ruído muito triste
Quando se amam.
Manuel Arana
in Adolescencia dos: poemas hormonados
Tradução de Tiago Nené

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A. Dasilva O - um poema do poeta A. Dasilva O - 13Abr2009 23:30:18
ODE AO VINIL
Uma agulha suja
por muitos acordes
suicidas enche-me
de catástrofes
entre o sentido
e a dissimulação
do seu destino
Lá fora dançam impessoais
as personagens-fantasma
da poética mutilação
do eterno retorno
que lá dentro dança
fora de si
Espero-me em silêncio
tal anjo perdido
poeticamente distorcido
pela palavra
Espero-te ao espelho quebrado
sem nada para te dar
entre gemidos agudos e graves
na camisa de sete forças
da palavra
A. Dasilva O

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João Luís Barreto Guimarães - um poema do poeta João Luís Barreto Guimarães - Páscoa Baixa - 08Mai2009 21:11:41
PÁSCOA BAIXA
Durante a manhã inteira a barba
ainda cresceu. O vórtice que me picava
ao fim de um dia de trabalho
já o posso adivinhar
neste círculo de flores.
O seu torso é imóvel. Nada
diviso a mover-se (um relâmpago das pálpebras?
o pensamento de um dedo?)
velo a hesitação da barba qual
néscio agarrando tempo.
Durante a manhã de março a
barba ainda cresceu
qualquer coisa dentro dele ainda
não queria morrer.
in A Parte pelo Todo
2009 – Quasi Edições

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José Carlos Barros - três poemas do poeta de Boticas José Carlos Barros - 07Mai2009 22:49:26
Os noticiários da manhã
Os noticiários da manhã abriram com essa imagem
fabulosa: dois poetas construíam um edifício.
Não era um edifício abstracto. Não
era o utópico edifício do coração das obras.
Era um edifício verdadeiro: alicerces,
paredes, telhado; pedra, tijolos,
cimento. Em vez do exercício habitual
de poetas procurando destruir os edifícios
todos da cidade, um a um, disparando canhões
de pólen, estes dois poetas erguiam
um edifício verdadeiro, concreto,
tangível. E isto é de uma humanidade
comovente. E isto chego a pensar
que quase merecia um poema.
É verdade que sinto
É verdade que sinto um imenso desprezo
pelos poetas. Por todos os poetas.
Esses seres ignóbeis que escrevem
a palavra «estrela» e uma estrela, de súbito,
nos queima os dedos distraídos. Uma
vez esteve aqui um poeta. Escreveu
a palavra «labareda». E ainda hoje as manchas
do fogo sujam as paredes e os
mosaicos vidrados da sala de reuniões
do Conselho de Administração.
Quando leio um poema em voz alta
sinto que as pessoas me olham
como se esperassem uma revelação.
Como se estivessem à espera dos milagres.
E hoje, finalmente, quase cedo à
tentação de explicar os mecanismos
dos milagres. Por exemplo:
eu posso fazer gelo escrevendo apenas
a palavra «gelo». E isso mesmo
faria neste momento
se não temesse que os mais distraídos
usassem o gelos nos copos
altos do gin tónico.
José Carlos Barros
Inéditos
Lidoaqui

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César Actis Bru - um poema do poeta argentino César Actis Bru - Dentro do Autocarro - 03Mai2009 20:10:15
DENTRO DO AUTOCARRO
Dentro do autocarro
uma mosca
viajou connosco
desde a capital
da república
até à simples
capital de uma província.
Que será da sua vida
quando desça
e se encontre
tão sozinha e inválida
como os seres humanos
depois da queda?
(Santa Fe/Argentina)
Tradução de Tiago Nené

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Adélia Prado - um poema da poetisa brasileira Adélia Prado - Casamento - 13Abr2009 23:35:01
CASAMENTO
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, peque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como «este foi difícil»
«prateou no ar dando rabanadas»
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos pela primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
Adélia Prado, poetisa brasileira

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A. Alvarez - um poema do poeta inglês A. Alvarez - 13Abr2009 23:18:39
Abruptamente, o odor de flores, agudo, vago, delicado,
O velho coração batendo suavemente, olhos
Frescos como uma maçã, todas as rugas idas.
Quem teria imaginado? Não ela, não ele.
Algo passou pelo quarto e não ficou.
‘Viste-lhe o rosto?’ disse ela. Ele disse,
‘Que dizia?’ ‘«Ido»’,
Respondeu ela, ‘Ou foi isso o que pensei que disse’.
Ele respondeu, ‘Não. «Vem,» estou certo de que foi «vem».
Chamou,’ disse ele, ‘Devíamos segui-lo. Não voltará.’
‘Espinheiro no Outono,’ disse ela, ‘Não me faças rir.
«Ido» foi a palavra, e partiu. Não sejas louco.’
‘Espinheiro,’ disse ele, ‘Primavera, o odor tardio de Primavera.
Tudo abre, tal como era.
Não vens comigo?’ disse ele. ‘Ainda temos
Uma oportunidade. Escuta. Cheira,’ disse ele,
‘Fomos adiados.’ Lentamente, preguiçosamente,
Ela abanou a cabeça pesada e virou-se.
‘Não espero,’ disse, ‘Não penses que o farei.’
O cabelo escuro à volta do rosto, os olhos ocultos.
‘Nunca,’ disse ela, ‘Já esperei demais.’
Ele respondeu, ‘Escuta. Está a chamar. É a nossa última oportunidade.’
Como comida, como chuva, como névoa. Boca aberta, coração aberto.
‘Tudo floresce,’ disse ele, ‘Como quando éramos novos.’
‘Quando éramos novos?’ perguntou ela, ‘Não me lembro.’
Uma centelha de oiro, um sorriso, uma voz vaga chamando
Confusamente ‘Vem,’ ‘Ido,’ ‘Vem’. Os odores mesclados
De Primavera na noite de Outono. ‘A nossa última oportunidade,’ disse ele.
E ela respondeu, ‘Aproveita-a sem mim.’
A. Alvarez
Poema com tradução de Manuel de Seabra.

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Jack Kerouac - um poema do poeta americano Jack Kerouac - 23Abr2009 02:12:49

O universo é uma senhora.
Conserva no seu interior a luz ainda por nascer —
A Nossa Senhora. Notre Dame
Apropriado é que Nostradamus pudesse prever o futuro —
Essa é uma função de nossa senhora.
Nós que somos as folhas do chá.
in Pomes All Sizes
Tradução inédita de Tiago Nené

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Isabel Meyrelles - um poema da poeta surrealista portuguesa Isabel Meyrelles - 14Abr2009 00:05:26
Entre o unicórnio e tu
O espaço de um grito
Cega procura
Do teu corpo
No interior de ti
No meu amor
Espaço entre unicórnio
E eu
Isabel Meyrelles
in Poesia
Edições Quasi

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Tiago Nené - um poema do poeta Tiago Nené - Cidade Subjectiva - 20Abr2009 23:40:55
CIDADE SUBJECTIVA
E depois existe uma cidade subjectiva
(sem casas)
e observa-se no ar
um copo de whiskey gigante, ouvem-se vizinhos furtivos
sobre a sede rígida,
e emagrecem as palavras que riscam a parede, descreve-se
a memória cautelosamente
e sazonam-se as vozes que vão escurecendo
num buraco de energia.
E faz-se silêncio e não há luz na mão.
[E o futebol não pára
(um jogador vê o segundo amarelo e volta
para o geral subjectivo)]
E por fim,
uma última corrida à tona de um semi-sono vivo,
a solidão de um golo.
Nasce então o esquecimento de uma alegria
(violoncesca)
de noite, luzes e transpiração.
in Polishop
(pré-publicação)

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Adalberto Alves - um poema do poeta Adalberto Alves - 13Abr2009 23:25:28
No Ano Internacional da criança
Dizia aqui há dias, não sei quem,
Com sorrisos de abastança e falas de desdém
- Que fome impertinente, que gula subversiva!
E fogueiras ardem e desmascaram-se folias.
Sobre um mar negro onde a loucura é diva
Desfraldam-se guerreiras melodias.
Boiardos sublevados cospem no cadáver de Lenine
Enquanto uns comem passas de Corinto
No Palácio de Inverno há biombos de absinto
Para que a matula, por detrás, urine.
Reuni a Geral Assembleia da generalizada carência
Vós sois orgulho e gáudio de toda a nossa ciência!
Párias do Bangla Desh
Paus de Arara do Nordeste
Kampucheias peregrinos
Bantustões das podres roças
Sentam-se com um sorriso agreste
E mães mostram meninos com um ar exangue.
Depois entra o Biafra a cantar hinos
E ostentando as mãos cheias
De pistolas disparam – bang, bang –
Vestidos de cowboy, sem sapatos nem meias.
«Alto lá, esta lata está estragada!»
Grita descomposto Hamlet na televisão
Olhando a caveira do pai mal embrulhada.
Bob Dylan suspira que nos States se desterra
E pelo sim, pelo não,
Investe em acções numa fábrica de guerra.
Porco, sujo, quero-me porco!
Poderia Maiakovski ter gritado
No auge do desespero e da desdita
Porque até o modernismo se consome,
Tem a modernidade que tem a própria fome dita.
Ai Marinetti! Suspira o Duce p’ra Dannunzio,
E o Che faz tiro ao alvo nas palavras, presas numa guita,
Dos poetas de raras sensações.
E «um grande lagarto verde com olhos de pedra e água»
Vende castanhas a dez tostões
E puxa fogo aos rútilos pinhais da mágoa.
Entretanto, ò suprema das venturas,
É Natal e isso se alcança da televisão a cores
Mas um hereje desdenha das alturas
Porque adormece mal,
Porque não tem boa-vontade
De se deitar com fome
De amanhecer com dores.
E enquanto se entende a doce melodia
O Papa no fervor da pregação
Escorrega e cai com palavras ímpias
Sobre a pia.
Ai João Paulo cinquenta vezes o negaste!
Estar vivo é ferver em água benta
E tudo é um paiol ou uma veia
Que ao pulsar fatalmente rebenta.
Por isso sou um louco à margem da vida
Com os cabelos da alma desgrenhados.
Estou convosco ò miseráveis
Na vala comum dos deserdados!
E, ai de mim, que vaga fronteira!
Um instante de vida é tempo ganho à morte
Pois morrer aos quinze anos ainda é ter sorte.
Por isso Índia, efémera e vedântica
És santa e luminosa
Na cópula frenética
Mas, perdoem-me Aurobindo ou Ramdas,
- Tudo será Maya – que visão esquelética!
À folia, à tripa forra!
Viva o coito de barraca
Com os incautos a olhar
E a chafurdarem, alegremente, em caca.
Vejo tudo isto – constatação bem velha
E Van Gogh doido de amarelos
Corta uma orelha.
Olho distraído o meu umbigo
Tenho nojo da minha saciedade.
A rainha de Inglaterra perde a compostura
E masturba-se com banana madura
Inaugurando um lar para a terceira idade.
Wenn ich eine Schwalbe wäre
E um miúdo maltrapilho risca-me o carro
E eu fico de olhar turvo e com um instinto bera.
Ò portas cintilantes sobre a madrugada
Ténues vestígios sobre a fronteira da vida
Aparas da morte debruçadas sobre o nada,
Tão perto, tão perto…
Coexistem alegres comemorações sobre o corpo de um burro
E de M=mc2 um vago cheiro a esturro.
Um hipopótamo vestido de Tio Sam
Vai direito à lua todo cio.
Bandeirinhas se agitam em todas as nações
Ritmos de can-can
Alegres canções
E eu penso: A puta que os pariu!
E ardo como um incêndio
No manicómio da história
E é noite de Natal,
Alles Schlaft,
E – Tudo brilha em glória.
Num lance de teatro
Cristo foge arrependido pela porta do cavalo.
Torquemada murmura: meus irmãos!
A oposição berra: não me calo!
E um Pilatos qualquer defeca aliviado
Na bacia em que lavou as suas mãos.
- Canso-me enfim. Quero dormir sobre este pesadelo.
Um instante de repouso
E que haja aqui e agora um velho do Restelo,
Que nos incendeie ou nos roube as esperanças
E sendo das Fúrias o seguro dono,
Nos lance a sua maldição:
Gente sem sentido,
Ou voltais de novo a ser crianças
Ou tendes de perder, para todo o sempre, o sono!
Adalberto Alves

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Manuel de Freitas - dois poemas do poeta Manuel de Freitas - 13Abr2009 23:58:05
Grand Hotel København, 326
Onze horas: a tua mão adormecida marca
agora um conto de Karen Blixen
- veremos em breve essa casa cinzenta,
em Helsingør - enquanto eu ouço uma sonata
de Scarlatti tocada por Scott Ross
e sei que também isso ficarei a dever à Dinamarca.
Apontamentos culturais? Podem até chamar-lhes
assim, ignorando a áspera nudez da voz,
o grito comum que viemos suspender aqui.
Lá em baixo, por exemplo, os funcionários do
restaurante, terminado o serviço, abrem
a terceira garrafa de champanhe e fumam
ruidosamente, como se amanhã não existisse.
A questão, no fundo, é apenas esta: há momentos
em que a vida nos parece quase bela,
escolhos onde embatem as mais íntimas certezas.
Talvez adormeçamos lado a lado,
de costas para a morte, e haja corsários ao fundo,
um mar de gelo protegendo-nos da noite.
All you need is love 2
Mas não é bem assim, dir-se-á.
Vinte e seis séculos de lírica
deviam, pelo menos, provar o contrário
- na hipótese argilosa de esses
cadáveres afamados terem alguma coisa
a dizer-nos quanto ao melhor método
de atravessar ruas superpovoadas.
Onde eu te vi passar, meu amor,
com o lenço vermelho, os cabelos
mais curtos e as pernas que embora
tenazes herméticas te davam - por
assim dizer - um ar sofrível de corpo.
Não sei porque é que reparei nisso,
logo eu, logo hoje. Simples distracção da morte
- a reinvindicar uma anatomia, e paz.
Poemas de Manuel de Freitas

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Patricio Manns - um poema do poeta chileno Patricio Manns - 17Abr2009 05:29:26
A VIDA EM ESPIRAL
O amor é um orgasmo entre duas lágrimas
A lágrima é um lago rodeado de estertores
O estertor é um vulcão de vento
O vento é o caminho dos cantos
O canto é um mistério da boca
A boca é um abismo antes do peito
O peito é outro abismo entre dois sangues
O sangue é o motor que nutre o acto
O acto é uma dança contra o tempo
O tempo é o que mede espaços até então não numerados
A cabeça é um nó sobre o pescoço
O pescoço é como um istmo entre duas selvas
A selva é o ancestral do deserto
O deserto é um corpo já bebido
Beber não apaga o fogo na consciência
A consciência é outro relógio de areia
A areia faz do cacto um rei antigo
O antigo nos modela como a uma criança
Uma criança é o passado dos corpos
E o corpo é um combate que se perde
A vida é um espaço exacto entre duas mortes
A morte é um espaço exacto entre dois fogos
O fogo é um espaço exacto entre dois frios
O frio é uma chama abaixo de zero
O zero é o silêncio antes do número
O número é o verbo matemático
A matemática é o cálculo da realidade
A realidade é o único incrível
O incrível é o que não podemos
E o que não podemos é o que queremos.
Adaptação ao português europeu: Tiago Nené

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Jorge Melícias - um poema do poeta Jorge Melícias - 17Abr2009 16:22:08
O poema são fogueiras levantadas na garganta
ou um sono inclinado sobre as facas.
Alguém diz, a prumo
todos os nomes queimam,
e há uma deflagração assombrosa,
a palavra acende-se
com uma árvore de sangue ao centro.
Jorge Melícias
in A Luz nos Pulmões

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Pedro Gil-Pedro - um poema do poeta Pedro Gil-Pedro - 17Abr2009 00:36:09
Chegaram ao alto das estações XX
Chegaram ao alto das estações
com o rumor da monda a velar nos taludes.
juntas
trabalharam a caligrafia caindo
de bruços em novembro. outro
novembro.
depois a cútis susteve
os gestos o cânhamo a escarça
irrompeu nas cordas de um pulmão.
e nas fêmeas adormecidas
com todo o pensamento nos dedos.
do alto
das estações sopraram
novembro nas pálpebras reconhecendo
nos torsos
nus o esperma dos animais.
por fim
embalsamaram novembro no coração.
ou janeiro. tanto faz.
Pedro Gil-Pedro
in Animais Cheios de Movimento no Inverno
Quasi

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W.H.Auden - um poema do poeta inglês W.H.Auden - 13Abr2009 23:11:23
FUNERAL BLUES
Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Não deixem o cão ladrar aos ossos suculentos,
Silenciem os pianos e com os tambores em surdina
Tragam o féretro, deixem vir o cortejo fúnebre.
Que os aviões voem sobre nós lamentando,
Escrevinhando no céu a mensagem: Ele Está Morto,
Ponham laços de crepe em volta dos pescoços das pombas da cidade,
Que os polícias de trânsito usem luvas pretas de algodão.
Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Este e Oeste,
A minha semana de trabalho, o meu descanso de domingo,
O meio-dia, a minha meia-noite, a minha conversa, a minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: enganei-me.
Agora as estrelas não são necessárias: apaguem-nas todas;
Emalem a lua e desmantelem o sol;
Despejem o oceano e varram o bosque;
Pois agora tudo é inútil.
poema com tradução de Maria de Lourdes Guimarães

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Roberto Bolaño - um poema do escritor chileno Roberto Bolaño - 13Abr2009 01:38:49

Não importa até onde te leva o vento
(Sim. Mas gostaria de ver Séneca neste lugar)
A sabedoria consiste em manter os olhos abertos
durante a queda (Blocos sónicos
de desespero?) Estudar nas esquadras
de polícia Meditar durante os fins-de-semana
sem dinheiro (Tópicos que hás-de repetir, disse
a voz em off, sem te considerar um infeliz)
Cidades supermercados fronteiras
(Um Séneca pálido? Um bife sobre o mármore?)
Da angústia ainda não falámos
(Basta já. Dialéctica obscena)
Esse vigor irreversível que abrasará as tuas rotas.
De cadeiras, de entardeceres extra,
de pistolas que acariciam
os nossos melhores amigos
está feita a morte.
(Chile, 1953 - Espanha, 2003)
Poema com tradução de Tiago Nené

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Mario Rivero - um poema do poeta colombiano Mario Rivero - 13Abr2009 22:59:15
O poeta colombiano Mario Rivero faleceu hoje. Era considerado o precursor da poesia urbana no seu país. Muito apreciado por nós, Casa dos Poetas, publicamos hoje um poema seu com tradução de Tiago Nené.
Este homem não tem nada que fazer
sabe dizer poucas palavras
leva nos seus olhos colinas e sestas na relva
Vai em direcção a algum lugar com um pacote debaixo do braço
em busca de alguém que lhe diga "entre"
depois de ter engolido o pó
e o estridente apito dos comboios
depois de ter visto a lista de empregos nos jornais
Não deseja mais do que descansar um por um os seus poros
Há tanta solidão a bordo de um homem
quando apalpa os seus bolsos ou conta os frangos assados nas vitrinas
ou na rua os cavalinhos que fazem a chuva feliz
E dentro da tibieza as bocas sorriem à meia-noite
algumas se beijam e entesouram desejos
outras mastigam chicletes e brincam com as chaves
Crescem os bosques de ídolos
e o caçador se faz cobrar pela sua melhor peça
Poema traduzido por Tiago Nené

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Salette Tavares - um poema da poetisa Salette Tavares - 13Abr2009 00:54:50
Bule bule bule bule bule bule bule
a palavra parece a água a borbulhar
bule bule bule bule bule bule bule
a água a ferver.
Bule bule bule___o bule aquece o bule bule
deita-se o chá e o bule bule bule bule
bule bule bule vezes sete deita-se a água
bule bule bule bule a água a ferver
bule bule bule ____ o bule serve o chá.
Beber ____ é matar _____a sede.
Bule bule bule bule bule bule bule
Beber ____ é o acto sagrado_____de matar
a sede. Bule bule bule bule o bule é o receptáculo
escuro _____________________da morte.
Bule bule bule bule ______o bule é o tabernáculo.
O bule não é o copo _______bule bule bule bule
o copo é o receptáculo claro _____________da morte
da sede._Mas o bule é divino_____________e raro.
Escuro ______o bule
bule bule ____ o chá é divino e puro.
Sabedoria. Bule bule bule bule bule
Faço a cerimónia do chá cinco vezes por dia.
O bule está quente.
O bule está morno.
O bule está frio.______Sophia!
As mãos acompanham em concha
o bojudo do bule companheiro… bule bule
bule bule bule __todo o dia.
As tisanas são assunto ____da Ana
Hatherly.
Bule bule bule bule bule bule bule
com asa e bico bule bule bule bule
o bule é a ave do espírito _______santo
em si.
Garça_pato_cisne_cegonha_avestruz
conforme o bule o pescoço varia
e produz bule bule bule bule
uma chávena de Universo
inteiro.
O bule é o sacrário________por isso
Beber chá é beber ___ a noite e o dia
é sorver bule bule ___ o enigma primeiro.
O bule cheio bule ____é o ventre relicário
do chá ____bule ____ meu néctar
verdadeiro bule bule bule bule claro
meu alimento bule bule bule __caro.
Bule bule bule bule bule bule bule.
_______________BULE.
in Poesia Gráfica
Lisboa
Casa Fernando Pessoa

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Manuel Silva-Terra - dois poemas do poeta Manuel Silva-Terra - 11Abr2009 02:32:30
Lixo na berma da estrada
são as flores venenosas
da civilização
Um dia voltarás
Os painéis publicitários
terão caído de podres
as placas estarão cobertas
de hera
as raízes das árvores estilhaçam
o asfalto
o ruído dos motores
substituído pelo silêncio
É esta a revolução
a que não poderás faltar
PARAÍSO PERDIDO
Quando estás no deserto
vê as estrelas que estão
poisadas na linha do horizonte
Não precisas de levantar a cabeça
para olhá-las de frente
Manuel Silva-Terra
in O que sobra

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