Serpente Emplumada

a Primavera só existe se acreditarmos que houve Inverno - 21Mar2010 00:31:00

não há primavera

nos campos eternos

na nervura do mundo

que acende nos olhos

o fogo das constelações perdidas

que mostram um céu invertido

no fundo abissal

onde a treva rebrilha ao som furtivo

das lâminas impregnadas de longe e terminação

não há retorno quando o princípio é a alada expansão

de não ter que haver depois

a exacta geometria da contemplação

vulcão de agonia mental

interrogar é sentir a ondulação do oceano sem começo

os ossos em flautas convertidos

harmonia da carne que é vegetativa anunciação do efémero

por momentos a maré vazia descobre as rochas do abandono

por momentos inamovíveis e peremptórias

nada nasce

o esquecimento dá a aparência de nascer às vidas transitórias

o eterno é instante

terrível abrupto inclemente

são as palavras ânforas no bojo dum navio naufragado

restos de viagem na impossibilidade de chegar

chega um momento em que a vida é só isso

a espera crava-se na nudez da fantasia

e fere de firmamento a capacidade de desejar



Fonte: http://serpenteemplumada.blogspot.com/2010/03/primavera-so-existe-se-acreditarmos-que.html

primavera - 20Mar2010 22:26:00



"Depois do Inverno, morte figurada,
A primavera, uma assunção de flores.
A vida
Renascida
E celebrada
Num festival de pétalas e cores."

Miguel Torga

Fonte: http://serpenteemplumada.blogspot.com/2010/03/primavera_20.html

- 20Mar2010 21:55:00



Fonte: http://serpenteemplumada.blogspot.com/2010/03/blog-post_20.html

PRIMAVERA - 20Mar2010 19:57:00


os lírios roxos
de meados de Março
são pré-anúncio
dos jacarandás
de Junho


Fonte: http://serpenteemplumada.blogspot.com/2010/03/primavera.html

ENTARDECER - 20Mar2010 15:46:00



cai a chuva de enxurrada
sobre este final de dia
enchendo tudo de nada
- que é de onde o tudo se cria


Fonte: http://serpenteemplumada.blogspot.com/2010/03/entardecer.html

"...só há homem, quando se faz o impossível" - 20Mar2010 11:04:00

"Estou a exigir muito de si? Quem lhe há-de exigir muito senão os seus amigos ? Eles receberam o encargo de o não deixar amolecer e, pela minha parte, tenha você a certeza de que o hei-de cumprir. Você há-de dar tudo o que puder, e mesmo, e sobretudo, o que não puder; porque só há homem, quando se faz o impossível; o possível todos os bichos fazem. Quando você saltar e saltar bem, eu direi sempre: agora mais alto! Que me importa que você caia. Os fracos vieram só para cair, mas os fortes vieram para esse tremendo exercício: cair e levantar-se; sorrindo"

- Agostinho da Silva, Sete Cartas a um Jovem Filósofo [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 268.

Fonte: http://serpenteemplumada.blogspot.com/2010/03/so-ha-homem-quando-se-faz-o-impossivel.html

Não tenho pressa - 20Mar2010 08:26:00


Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.
Não; não sei ter pressa.
Se estendo o braço, chego exactamente aonde
    o meu braço chega -
Nem um centímetro mais longe.
Toco só onde toco, não aonde penso.
Só me posso sentar aonde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,
 vivemos vadios da nossa realidade.
E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.

- Alberto Caeiro

Fonte: http://serpenteemplumada.blogspot.com/2010/03/nao-tenho-pressa.html

Partir - 20Mar2010 01:03:00



Um dia partirei,
e quando partir
verás no meu rosto
a luz da felicidade,
espelho do meu destino.
Olha os meus olhos!
Vítreos.
Mergulha e segue-me.
Nada temas,
alcançarás as alturas.
Plana comigo
no topo do mundo,
nas profundezas do oceano Mar.
Nada me prende,
espera-me a Liberdade.
Vai?
(In Sentir e Ser - 2008)



Fonte: http://serpenteemplumada.blogspot.com/2010/03/partir-um-dia-partirei-e-quando-partir.html

"Está-se só com tudo o que se ama" - Novalis - 19Mar2010 19:16:00



Fonte: http://serpenteemplumada.blogspot.com/2010/03/esta-se-so-com-tudo-o-que-se-ama.html

contemplando - 19Mar2010 17:26:00




"Mesmo agora contemplando as tuas aguas pude ver petalas vermelhas descendo...

outro cravo laranja,

pedacos belos de oferendas.

Uma cinza.

Madeira que queimou corpos de quem ja' partiu. Uma borboleta tambem...

caida,

que desiste agora de lutar contra a corrente,

e uma semente,

que promete ser uma grande arvore depois de escolher o lugar onde parar"

Fonte: http://serpenteemplumada.blogspot.com/2010/03/contemplando.html

Velvet - the dark side to a Rose - 19Mar2010 17:05:00

The Rose shines over her rose coloured shadows,
it's her velvet touch.

Fonte: http://serpenteemplumada.blogspot.com/2010/03/velvet-dark-side-to-rose.html

Cultura ENTRE Culturas: uma revista diferenTre (a sair em Abril) - 19Mar2010 12:39:00





Cultura ENTRE Culturas - Apresentação

Cultura ENTRE Culturas é uma revista semestral dedicada ao diálogo intercultural e a estabelecer pontes e mediações entre todas as disciplinas, saberes e tradições. Publica ensaio, poesia e fotografia e elege-se pelos seguintes propósitos:

1. Contribuir para o desenvolvimento de uma consciência-experiência integrais, multidimensionais, inter e trans-disciplinares do real e do que possa haver além-aquém do que como tal se designa, enriquecendo criativamente a vida e a existência mediante a compreensiva realização das suas supremas possibilidades.

2. Explorar antigas e novas possibilidades espirituais, mentais, éticas, artísticas, científicas, educativas, ecológicas, comunicacionais, sociais, políticas e económicas, alternativas à crise e declínio do paradigma civilizacional ainda dominante e que obedeçam ao soberano critério do melhor possível para todos os seres sencientes, humanos e não-humanos.

3. Promover o conhecimento e diálogo entre culturas, civilizações, religiões e espiritualidades, bem como entre estas, o ateísmo e o agnosticismo, no espírito da mais ampla imparcialidade e universalismo.

4. Contribuir para a harmonia e a não-violência na relação do homem consigo, com a natureza e com todos os seres sencientes, ou seja, capazes de sentir dor, prazer e emoções.

5. Despertar e orientar para estes fins a cultura e a sociedade portuguesas, bem como a comunidade lusófona, valorizando e promovendo as tendências nelas latentes que mais apontem neste sentido.

A revista Cultura ENTRE Culturas tem na Comissão de Honra alguns dos pensadores mais influentes e representativos do diálogo intercultural, integra no Conselho de Direcção destacadas figuras públicas e da academia portuguesa e internacional e conta no Conselho Editorial com alguns dos mais jovens valores da cultura portuguesa e não só.

ficha técnica

direcção
Paulo Borges

comissão de honra

François Jullien
Hans Küng
Jean-Yves Leloup
Raimon Pannikar
Matthieu Ricard
Agostinho da Silva (In Memoriam)

conselho de direcção

Pe. Anselmo Borges
Constança Marcondes César (Brasil)
Carlos João Correia
Frei Bento Domingues
António Cândido Franco
Markus Gabriel (Alemanha)
Dirk-Michael Hennrich (Alemanha)
Rui Lopo
Amon Pinho (Brasil)
Andrés Torres Queiruga (Galiza)
Miguel Real
José Eduardo Reis
Luíz Pires dos Reys
Adel Sidarus
Francisco Soares (Angola)

conselho editorial

João Read Beato
Fabrizio Boscaglia (Itália)
Duarte Drumond Braga
António Cardiello (Itália)
Paulo Feitais
Miguel Gullander
Cem Komürcu (Turquia)
José Lozano (Galiza)
Rui Matoso
Jorge Telles de Menezes
Rodrigo Petrónio (Brasil)
Romana Pinho (Brasil)
Cinzia Russo (Itália)
Isabel Santiago
Luís Carlos Santos
Maria Sarmento
Maurícia Teles da Silva
Ricardo Ventura

tradução e revisão de texto

Dirk-Michael Hennrich
Rui Lopo
Jorge Telles de Menezes
Luíz Pires dos Reys
Martina Weitendorf

comunicação e imagem

Sofia Costa Madeira
Tiago Lucena

direcção de arte

Luíz Pires dos Reys

design gráfico

Xénia Pereira Reys

edição

Âncora Editora

sede

Rua Carlos Ribeiro, 30 - 4º
1170-077 Lisboa

telefone + 351 918 113 021
(para lançamentos e apresentações)
mail: revistaentre2010@gmail.com
blogue http://arevistaentre.blogspot.com
facebook http://www.facebook.com/group.php?v=info&ref=ts&gid=230286389667


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a cultura entre ilusão e des-ilusão - para um nomadismo inter e trans-cultural

maria sarmento
uma cultura do ente face a uma cultura do entre - contributo para a compreensão de novos paradigmas interculturais

paulo feitais
a lusofonia não é lusófona, mas universal

rui lopo
contributo para a re-construção da ideia de universalidade - notas para um elogio crítico de Kant

ricardo ventura
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?de Pretérito mais que imperfeito?, diário inédito de Mateus-Maria Guadalupe agostinho da silva
sobre ?De ?Pretérito mais que imperfeito?, diário inédito de Mateus-Maria Guadalupe? romana valente pinho

dest ? arte
| e da outra

o imperador do mundo miguel real
as Arquitecturas setecentistas de Piranesi, e a das Cidades Obscuras da BD de Schuiten do século XX: um elo artístico no trajecto do risco urbano inês do carmo borges

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a tradução do cânone budista tibetano (rui lopo)
Stephen Batchelor, ?vivendo com o diabo, uma meditação sobre o bem e o mal? (josé eduardo reis)

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Fonte: http://serpenteemplumada.blogspot.com/2010/03/cultura-entre-culturas-uma-revista.html

hoje sim amanhã não - 19Mar2010 11:40:00

Era terrível se não houvesse amanhã.
Se soubéssemos que isto tudo, pum.
E as bibliotecas em chamas.
E os heróis sem nada a fazer.
E os poetas com dores intestinais.
Eu chupava um rebuçado e aguardava serenamente o desfecho, saldando os pecados,
preparando duas mudas de roupa lavada,
uns quantos cigarros para o caso de a viagem para o outro lado ser longa.

Depois ligava a uns bons amigos e contava-lhes a última adivinha do século
ao mesmo tempo que lhes recomendaria calma.
Afinal de contas amanhã vamo-nos todos encontrar. Só que em outro lugar.
Despedia-me dos pássaros e das árvores,
olhava a terra com a leveza de uma música gregoriana,
aos meus vizinhos era um até já.
E, se ainda restasse um tempinho, terminaria um poema que anda comigo às voltas pelo mundo.
Algo sobre o amor de um peixe com uma gaivota.

Claro que tudo isto não passa de uma suposição já que ninguém vem cá dizer que esta loja universal vai encerrar para obras.
Divirto-me a calcular suposições, a tirar partido da minha ironia.
A fé está criando versões do original.
Os homens lamentam-se por saberem que a vida não é uma vida inteira.
Bem, já estou atrasado, já escuto um comboio a apitar que, por certo, fascinado em cortar os montes e os céus.
Se não houvesse amanhã acenderia um cigarro com os dedos,
dizia a deus: espera aí que já vou,
corria até ao mar para lhe dizer: sinto muito.
A dúvida é sim a maior certeza.
Amanhã pode estar calor mas o frio conserva melhor, até os pensamentos.
Portanto, antecipo a minha morte para amanhã,
porque hoje, ó porque hoje posso não estar aqui.

Fonte: http://serpenteemplumada.blogspot.com/2010/03/hoje-sim-amanha-nao.html

Que a Morte nos colha vivos, e não, como é de hábito, já meio mortos, aliás, suicidados. - 19Mar2010 08:05:00

- Agostinho da Silva

Fonte: http://serpenteemplumada.blogspot.com/2010/03/que-morte-nos-colha-vivos-e-nao-como-e.html

MUITO OBRIGADO - 18Mar2010 22:46:00


Quanto mais endividados os países
mais altos juros pelos empréstimos
com que o altruista capital
diz AJUDÁ-LOS


Fonte: http://serpenteemplumada.blogspot.com/2010/03/muito-obrigado.html

P´RA PULAR - 18Mar2010 16:26:00


pelo mal que fez na vida
nada em morto há que o proteja
:
nem flores à Virgem na ermida
nem mil missas na Igreja


Fonte: http://serpenteemplumada.blogspot.com/2010/03/pra-pular_18.html

Céu e asas de Primavera - 17Mar2010 18:46:00


Há uma caligrafia de silêncio
Nas horas em que o céu azul
Se baixa para apanhar a luz.

É a hora que sobe na asa branca
De uma ausência de fugazes penas?
Para ser vento é preciso
Desenhar no ar o bico, em filigrana,
De um traço fino e arcado
De gaivota da hora;
um sinal que aprofunda ainda mais
A face do silêncio.

O Silêncio que tremesse em asa no azulado
Olhar em brasa da Saudade
Como se a asa fosse o tecto do mundo
Suspensa na claridade eterna de uma letra!

Como eterno é o teu riso entre as flores do céu
E a tua boca a tormentosa tília deste rio
Sem nenhuma margem, nem outro sinal,
Que a arcada do ar: templo do reino
de silêncio e Saudade onde me vejo:
Asa em arco sobre a distância esbatida
Do dia: em cima, o céu do céu!
Em baixo o céu da alma,
A flor muda do peito
O alarme do azul
No céu silente.


Fonte: http://serpenteemplumada.blogspot.com/2010/03/ceu-e-asas-de-primavera.html

sobre o que acontece (novo fascismo) - 17Mar2010 16:23:00

'a administração de uma grande segurança molar organizada tem como correlato toda uma microgestão de pequenos medos, toda uma insegurança molecular permanente, ao ponto que a fórmula dos ministérios do interior poderia ser:uma macropolítica da sociedade para e por uma micropolítica da insegurança'. gd

parece 'o ovo da serpente' do ingmar bergman(m).

é estranho mas cheira-se o retornar de algo velho/novo. pobreza, instabilidade, dividas e eis o fascismo. muito cuidado serpentinos que até vós os apolíticos serão condenados (e com o fascismo não é no espírito é na dor corporal).

à luta

Fonte: http://serpenteemplumada.blogspot.com/2010/03/sobre-o-que-acontece-novo-fascismo.html

variações sobre PEC - 16Mar2010 14:40:00


1 -Definição:
País em Estado Coma

2 - Quem nunca PECou - que atire a primeira pedra


Fonte: http://serpenteemplumada.blogspot.com/2010/03/variacoes-sobre-pec.html

"Era tão grande o seu amor por ela..." - 16Mar2010 11:57:00

"Era tão grande o seu amor por ela que teria conseguido levantar a tampa do caixão - se a flor que ela aí colocou não fosse tão pesada"

- Paul Celan, Contraluz, 1949.

Fonte: http://serpenteemplumada.blogspot.com/2010/03/era-tao-grande-o-seu-amor-por-ela.html

ALQUIMIAS, de Ângelo Rodrigues - 16Mar2010 03:49:00

Introdução
Por Isabel Rosete

Erotismo, sensualidade, irreverência imagética, mesclados por um pensamento de fertilidade singular, que sempre tenta fugir à vulgaridade, ao ridículo do dizer comum das frases feitas, para isto ou para àquilo, tanto na presença dos temas ordinários, como perante a manifestação dos mais insólitos ou hilariantes, são os traços unificadores de Alquimias.

Entre a tanga e a treta ou a treta e a tanga (tanto faz!), entre Deus e o Diabo, ou qualquer outra silhueta do género, Ângelo Rodrigues caminha rumo a uma realidade realista (o pleonasmo é propositado) e quase-surrealista, num dizer marcado por uma poética da sensibilidade dos interstícios. Vai às entranhas do trivial e extrai-lhes o sumo e o miolo. Nada passa despercebido aos seus olhos microscópios inscritos numa alma de filósofo. Sim, de filósofo! Aquele que vê para além das aparências e que, tal como o poeta, que também é, sorve os pormenores das coisas-mesmas na sua essência primogénita.

Homens, mulheres, meninas, vampiros e outras criaturas que tais, estão, ao mesmo tempo que pairam e vagueiam, pelas páginas desta antologia policromática e multiforme. Mas, não são os únicos! Também há a Deolinda, os extra-terrestres, a vizinha do lado, o Sebastião e o Sócrates, o Soares e o Manel Feijão que, em competição ou não, partilham o mesmo ?esperma sagrado? em qualquer ?tourada à portuguesa?.

Espelhos e sonhos, bruxas e papas (sejam lá de quê!) envolvidos em estórias de incógnitas, mistérios, enigmas, por vezes esfíngicos, convidam o leitor a uma saga onde a Palavra ? em poesia ou em prosa ? fala mais alto, entre os anjos e os homens, entre o céu e o inferno. Mas antes, detenhamo-nos num passo intermédio: o Purgatório, onde os primeiros pecados são redimidos. E depois? Avança-se rumo ao infinito próximo da mortalidade a que estamos, irremediavelmente, sujeitos.

Todos os caminhos de bifurcam por entre o céu azul, a procura da verdade, algures por encontrar, no campo ou na cidade, em qualquer espaço deste mundo, ora visível, ora empoeirado ou enevoado, delimitado por um Tempo que sempre passa e só volta no ressurgimento das memórias do cantar e do celebrar.

Alquimias é, ainda, o esconderijo de muitos segredos onde o autor se revela, de um modo peculiar, também pelas letras das suas canções. Ao pensar e ao poetar, junta-se o musicar. A arte das musas, na sua linguagem universal, circunda o espírito do autor ávido do dito e do não-dito, acompanhado pelas aves do seu paraíso ou pelo cavaleiro das estrelas de um céu claro que lhe/nos indica um certo Destino.

Inventemos, exorcizemos?ousemos uma outra linguagem ou até uma meta-linguagem, de um certo ponto de vista, para dizer o aparentemente inefável, o que é encoberto por um pudor inexplicável, como se tudo no Homem e na Vida não fosse pura naturalidade. É este, seguramente, um dos grandes apelos de Ângelo Rodrigues, sempre para além ou para aquém de qualquer máscara ou dissimulação.

Um espírito sensível e sensibilizado, dialogante e afinado, como é o do autor, abrange e espalha-se por todos os lugares, até mesmo por aqueles que se mostram mais inacessíveis. Acompanha os passeios de Deus e os da Humanidade, bailando no centro das almas, nem sempre dispersas. Está, aí, em parte certa ou incerta, a escutar o Mundo na sua máxima exuberância ou esplendor, como Dionísio, em pleno estado de embriaguez, nas entranhas da Terra, sentindo com os instintos sem afastar a Razão, movendo-se pelo excesso (medido) de todas as hipérboles, ousadas ou não ousadas, mas sempre personificadas e presentificadas nas frontes de todas as noites iluminadas, esperando, expectante, na face oculta do Mistério.

Consagra-se como poeta, e como os poetas, aos silêncios falantes e à peregrinação, inevitável a todos os seres humanos, no campo da Verdade e da Imortalidade, num Éden, outrora perdido, que urge, agora, re-inventar.

Rejeita o tédio e a claustrofobia quotidiana para que não se lhe esgote a alma. Também busca o Amor, tomado como um propósito determinado e um fado (o fado fadado de todos os homens, sem excepção alguma), como uma força implacável que o move, consciente ou inconscientemente, sem eufemismos, na presença do perfume das rosas.

Aqui está, Ângelo Rodrigues, com as suas Alquimias, uma obra de um ecletismo incomparável ? conto, poesia, prosa, canções, entrevistas, aforismos, filosofias e outras coisas que tais ? acompanhado pelo desejo do Todo, da Plenitude, porém com impaciência, numa espécie de catarsis musical proporcionada pela linguagem das aves migratórias, tão errantes como ele próprio, que ao seu ouvido sussurram, iniciando-lhe e iniciando-nos uma espécie de terapia poética, rondante dos limiares do absoluto, entre os domínios da vida e da Morte, nem sempre em silêncio, nem sempre em oração.

E assim escapa às encruzilhadas paralelas do labirinto do Minotauro, pisando o fio de Ariana visível, quiçá, em qualquer noite de Lua cheia, de onde o nevoeiro se afasta, definitivamente. E porquê? ?Porque sim!? Sem perplexão.

Bebamos mais um sonho possível na lúcida loucura das palavras inebriantes deste mago dos mais indecifráveis enigmas, entre o céu e a terra, os mortais e os divinos, num eterno-retorno do outro e do mesmo, por vezes, num certo lastro de dúvida metódica.

Isabel Rosete

Janeiro de 2009

Fonte: http://serpenteemplumada.blogspot.com/2010/03/alquimias-de-angelo-rodrigues.html

Livro de Isabel Rosete "Vozes do Pensamento" - Uma Obra para Espíritos Críticos - 16Mar2010 03:44:00

Um livro intimista onde podem ler-me, integralmente, na mais pura transparência do meu
ser, existir, pensar e sentir. Também altruísta, no qual os actos ignóbeis dos homens são
condenados, dos pontos de vista ético, social e político, e os seus nobres feitos celebrados.

Exterioriza as vozes que há muito ecoam no meu pensamento, o qual viaja, por vezes hiperbolicamente,
por todos os lugares, na eterna busca pela Verdade, pela Sabedoria e pelas
essências das coisas-mesmas que, amiúde, se nos ocultam.

São pensamentos dispersos, vividos e por viver, projectados, sonhados ou recordados.Um
desabafo da minha Alma e do meu corpo sobre mim mesma e sobre o Mundo, tal como ele é
e se me apresenta em todas as suas dimensões.

Isabel Rosete

Fonte: http://serpenteemplumada.blogspot.com/2010/03/livro-de-isabel-rosete-vozes-do.html

divagação sobre o tema da chuva agora que não chove - 16Mar2010 01:20:00


Alguma coisa resvalava na janela. Gotas.lutavam com a janela dando-lhe em stacatto, antepassados que tremeram de frio, encharcados neste piano.


na rua a gorda dançava com um guarda-chuva comprado a um chinês por uma moeda. Os cães corriam abrigando-se debaixo de recantos, mas alguns, maravilhados atónitos, pedalavam nos charcos pequeno abismo. Certo parêntesis de sentido editou sobre eles, minha janela tímida, teu casaco seco. e ficou o certo interrogado, nas partidas da natureza, segurando o cachimbo de batalha, apagado.
surge, a estação do introspecto, Palimpsestos sob toalhas de mesa, do tamanho de montanhas os restos rolados por pequenas gotas.

numa sintonia quente, os ramos entrechocam, suaves e furiosos como se estivessem a lavar pratos nos intervalos. como se cadáveres bemdispostos estivessem a jogar futebol nos intervalos.
Muita gente, até nas ágoras, está achando que o espirito, comovido pelos Verões, nem precisa de se chatear com a profundidade das cantigas de água. de quando em vez, tal sublime atinge-nos como o comboio rápido,muito raramente:

"como nessas neblinas que se levantam notássemos duas estátuas romanticamente abraçadas, como vultos deslocados da paródia das fábricas. e seus ossos de marfim, hauridos através da carne compusessem catedrais cujos salmos vinham rumorejar às janelas. para quem estivesse despejado num banco, seco, isto afigurava-se um maravilhoso de beiço"

qual é a beleza destas gotas de água? se calhar é a circunstância do aparecimento. se for uma enxurrada o psicofisico recusa-se a tocar o piano, os dedos ficam entrelaçados. quais jornais diários, quando envoltos na divagação somem-se num ninho de lucifugas fosforescências, la tristesse de la lune. rasgada - noticias mudas, evocações.

separado do género conquistador e amoral, um reminiscente turba as faces do querubim malicioso. escadote e sapatos, a moção de subir pela janela aberta sim não?. interrompeu-se a telenovela requentada, a dolorosa mater das águas nem quer inspeccionar qual foi a prima que cometeu adultério, o camafeu que ribombou pelas escadas abaixo, como ovos de passarinho.

"o donaldo morrerá afogado nas poças, e os carros cairão de precipícios. alguns cães pedalam nos charcos pequeno abismo com perucas de lama."

a natureza é pouco curiosa destas coisas que interessam sobremaneira aos homens e os apoquentam num frenesim filosófico de rugas e simpatizam num hábito familiar incomodado de causas e efeitos.

Fonte: http://serpenteemplumada.blogspot.com/2010/03/divagacao-sobre-o-tema-da-chuva-agora.html

país - 15Mar2010 23:37:00




?Com um coração de homem aqui lavra,
de certeza outro sangue e outro amor,
com um corpo de carne e outra maneira,
de lançar a carne com o vigor sobreposto dos dias,
em que abrimos os braços
e lá fora as armas,
se desfecham sobre a paz.

Conheço o mapa ,
amor,
conheço a história,
as salas sitiadas,
os teus ombros,
conheço o corpo,
amor,
conheço o rio onde se lava a carne,
que combate as ciladas,
os lagos, os jornais
as árvore, o fogo e a luz total!
conheço,
amor ,
conheço a tua carne
e o coração armado da cidade.?

Gastão Cruz
imagem: "Alice no País das Maravilhas", Tim Burton

Fonte: http://serpenteemplumada.blogspot.com/2010/03/pais.html

DESAFORISMO - 15Mar2010 15:34:00

para pobre - sanção
e para rico>?
- Dalila?


Fonte: http://serpenteemplumada.blogspot.com/2010/03/desaforismo.html

Eduardo Roseira
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